
No post sobre roteiro da primeira edição, falamos sobre a Idéia como principal fundamento ao se criar e escrever um roteiro. Mas de onde vêm as boas idéias? Evitando dar fórmulas ou conceituar demais algo que pode ser aleatório e que varia de acordo com cada um, quero expor alguns pontos pontos em comum que, pelo menos, a maioria dos escritores poderão concordar.
Fontes de Idéias
- Idéias são frutos de suas próprias experiências, seja consigo mesmo (interiores), seja com a realidade que você conhece (exteriores) ou a soma dos dois (experiências exteriores com conseqüências interiores e vice-versa).
- Idéias são altamente influenciadas por suas experiências de leitura, por filmes e autores favoritos, histórias em geral nas quais você se baseia consciente ou inconscientemente. Embora seja quase inevitável, pois muito do que aprendemos sobre a arte de contar histórias vêm de observar como outros contadores de histórias exercem sua função, é altamente perigoso quando não vemos as estruturas da obra por trás da superfície. Não existe uma forma correta de usar essas influências, mas deve-se deixar claro que a verdadeira influência parte do pressuposto de que você conhece as obras em questão a fundo, a ponto de compreender os elementos dela que lhe influenciam. Ex.: Pretenso autor diz: “tenho fortes influências de Batman, por isso meu herói é solitário, sem poderes, tem um grande aparato que lhe permite vigiar a cidade e apetrechos que servem como armas e equipamentos de espionagem”. Isso não é uma influência válida para se extrair uma idéia, é uma cópia de características superficiais. Esse tipo de problema é o mais comum nos quadrinhos nacionais, tanto no segmento de super-heróis quanto nos mangas ou os chamados “alternativos”. Mas se o pretenso autor disser: “Tenho influência de Batman, por isso minha personagem é melancólica e está disposta a se misturar com as trevas para destruí-las”, aí estamos chegando a algum lugar.
- Idéias estão em toda parte, no mundo que o cerca. O universo é infinito, assim como as possibilidades para uma história. Se você fizer um tour nos lugares interessantes de uma cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro, você levará muitos dias andando e não esgotará as possibilidades de extrair dessa experiência uma boa idéia. Nada no mundo é estático, e sempre à sua volta algo está acontecendo, e muitas vezes esse algo é uma história em potencial. Prova disso é sempre existir aquela pessoa que chega em casa, no trabalho ou na escola contando uma história sobre algo que viu na rua ou no ônibus com a empolgação contagiante de um Charles Dickens, obtendo atenção e aprovação do seu pequeno público.
- Idéias vêm da sua única e exclusiva percepção das fontes. É preciso compreender que a forma como vemos o mundo difere de acordo com nossa educação, preconceitos, crenças, desejos, vontades e opiniões pessoais.
Imagine três escritores em uma mesma rua presenciando uma cena de acidente de carro, onde uma mulher está presa entre destroços e um homem negro se esforça para tirá-la, com sucesso. Ambos Contadores de Histórias viram a mesma cena, as mesmas pessoas, os mesmos fatos. Mas onde um pode ver uma oportunidade de escrever uma emocionante história sobre um herói urbano em resgate de vítimas de acidentes (Como Unbreakable, de Shyamalan), o outro pode ter tido a idéia de criar um suposto herói que salva as pessoas mas na verdade é um vilão que quer ter uma boa imagem pública. O terceiro pode ainda ter a idéia de escrever sobre um homem que por trás da imagem de um herói comum e bem intencionado, oculta desejos de seduzir a vítima do acidente. Agora notem que nenhuma dessas idéias foram aleatórias.
Suponhamos que o primeiro escritor acredita na bondade daquele homem e acredita que as pessoas devem se ajudar mutuamente. Ele é adepto do arquétipo do heroísmo incondicional.
O segundo teve experiências que lhe levaram a acreditar que homens negros e mal-vestidos como aquele certamente são criminosos e não tem nenhum bom motivo para arriscar a vida para salvar uma mulher branca que dirige um carro importado.
Imaginemos, finalmente, que o terceiro é do tipo que sempre olha as mulheres como objetos e toda e qualquer proximidade com uma delas é uma oportunidade de usufruir desse objeto. Então ele olha para aquele negro que, concordando com o segundo escritor não tem motivo algum para salvar aquela perua – linda, por sinal – a não ser por segundas intenções.
Ou seja, cada um vai ter suas idéias baseadas na forma como vê e interpreta o mundo ao seu redor. Claro que isso não é uma regra, mas é o que inevitavelmente vai acontecer se quiser escrever uma história sincera. Você irá tomar as decisões no decorrer das cenas de acordo com a forma como você observa, retém e absorve suas experiências pessoais, únicas, da sua ótica, e não de terceiros.
Essas são algumas das principais e mais abrangentes fontes de idéias, embora existam infindáveis outras – Uma piada que você ouve, uma informação que lê na internet, uma notícia de jornal, uma epifania, um despertar espiritual, um sentimento, um sonho enquanto dorme, um sonho que quer realizar… Mas nenhuma dessas fontes de idéias garante uma boa idéia.
O que poderia então me dar essa garantia?
Não há uma forma de garantir uma boa idéia. Mas existem meios de reduzir as chances de se usar uma idéia ruim. O mais eficaz deles é sempre explorar todas essas fontes, incansavelmente, todos os dias, em tudo o que você faz. Lembre-se, ser Contador de Histórias é um ofício, e não deve, de forma alguma, se tornar meramente um hobby para horas vagas. Se você é um Contador de Histórias em Quadrinhos, seja não apenas enquanto está escrevendo, mas quando estiver na rua, no ônibus, na escola, no trabalho, com os amigos, nos momentos de lazer… Talvez essa seja a única regra, e ela vale ouro. Seja um observador do mundo e da vida. Porque histórias se tratam da vida, e ela é a maior e mais confiável fonte de idéias.









Quando termino de ler seus textos acho que foram curtos demais. hahaha
Gostei muito disso: entender a essência das nossas influências para não acontecer de só copiar características superficiais dos personagens.
Também gostei de as ideias sinceras virem da nossa vida. E achei muito interessante pensar em como pessoas diferentes podem tirar ideias únicas mesmo presenciando a mesma cena, e que essas ideias tem a ver com como as pessoas são e como interpretam o mundo que vêem.
Imagina a infinidade de histórias que podem ser escritas? Porque cada pessoa é única e única também a forma como ela interage e ver o mundo.
Fascinante!
E ainda há quem diga que não há mais histórias para ser contadas. Falácia dos que não tem coragem para romper com os clichês e estruturas pré-determinadas e inovar, inventar, criar, ousar ser diferente, talvez louco.
Hoje, na Semana de Quadrinhos da UFRJ (que todos os que são do RJ deveriam conferir, amanhã é nossa oficina), o André Dahmer, das tirinhas Os Malvados, disse “Arte é inventar mundos”. Segundo ele, não há limites desde que se tenha CORAGEM, TALENTO e AMOR pelo que faz.
Mais uma aula incírivel…!
Ei, eu gostei muito das tirinhas do afonso e da amanda.
Amanda é meu nome de verdade (nico é só nick). Eu me identifiquei com a personagem tb pq eu desenho roteiros de outras pessoas :3
Mas sou eu e muito eu quem implora pra desenhar as estórias dela.
Estive procurando por aulas de roteiro desde muito tempo, pq quero aprender a escrever por mim mesma. :3
Adorei o post. bjus
Se estiver procurando por roteiristas, o Afonso conhece um monte que, como ele, procuram desenhistas. #ficadica
Isso seria interessante. Mas deixo logo claro que no momento só estou desenhando mangás :3
Meu e-mail é azukimiho.brasil651@gmail.com.
Obrigada por responder meus posts
Eu quis dizer INCRÍVEL!