Uma das maiores contribuições de Joseph Campbell aos contadores de histórias foi a concepção da Jornada do Herói, ou Monomito, que aparece pela primeira vez em seu livro The Hero with a Thousand Faces (“O Herói de Mil Faces“).
O Monomito é a tese postulada por Campbell que afirma que todos os mitos já contados em quaisquer cultura e época falam de heróis que percorrem sua jornada passando pelos mesmos estágios.
Campbell afirmava que os heróis se sacrificam por algo – todos eles. Seja por uma pessoa, uma sociedade ou uma ideia.
Precisamos entender que o problema real é a perda de algo primário que é pensar antes de tudo em si mesmo, na auto-proteção. Perder a si mesmo, entregar-se pelo outro… exige uma grande transformação da consciência… e os mitos tratam disso, da transformação da consciência.
Eles retornam com algo fantástico para compartilhar com as pessoas à sua volta. Mas também é recorrente que suas descobertas e conquistas sejam perdidas ou destruídas pelos seus seguidores.
Eles saem da floresta com ouro e este vira cinzas.
Dessa forma, Campbell descreveu as etapas dessa jornada e utilizou a psicologia jungiana e seus conceitos de arquétipos para decifrar simbolos recorrentes nas histórias, sobre os quais entraremos em detalhes nas edições futuras da Quadrinize!. Sua tese foi adotada por George Lucas, amigo e aprendiz, na saga Star Wars, cujo sucesso comprovou a eficácia da Jornada do Herói e seus efeitos no grande público.
Autores e estudiosos estruturalistas da narrativa encontraram em Campbell uma base teórica para aplicar uma metodologia à arte de contar histórias e criar seus enredos. Mais tarde, Cristopher Vogler, executivo dos estúdios Disney, escreveu e distribuiu um memorando chamado “Guia Prático para o Herói de Mil Faces”, no qual descreveu as etapas da Jornada do Herói indicando como utilizá-las nos roteiros dos desenhos animados.
O memorando deu origem ao que se tornou conhecido posteriormente como Paradigma Disney e todas as produções desde então foram baseadas nele. Vogler mais tarde publicou o livro A Jornada do Escritor, contendo uma metodologia mais específica, mesclando a estrutura do monomito com conceitos já padronizados de Hollywood, como o Paradigma Field.
O livro chamou a atenção de Hollywood e diretores e roteiristas de todo o mundo, e é impossível mensurar quantos deles o utilizaram em filmes, séries e outras mídias.
No entanto, o objetivo de Campbell jamais foi fornecer à industria do entretenimento uma fórmula mágica que garantisse o sucesso. Sua tese diz respeito à jornada do ser humano.
Segundo Campbell, os mitos serviam para orientar o homem a fazer sua própria jornada e encontrar sua bliss, aquilo que o completa. Oferecem uma resposta não apenas para a pergunta “por que estamos aqui?” mas também “o que podemos fazer, já que estamos aqui?”. Eu diria, em outras palavras, que o “mapa” traçado por Campbell e que consta em todos os mitos, nos ajudam a encontrar nosso propósito quanto seres humanos individuais (e não individualistas) e como cumpri-lo. Não seria de admirar que Campbell ressaltasse a presença da Jornada nas maiores personagens das três grandes religiões: a história de Jesus, Buda e Maomé, que tratam dessas questões.
De fato, os três não apenas percorreram a Jornada, como indicaram o caminho para seus seguidores.
A Jornada possui 12 etapas mas pode ser resumida em três atos:
A Partida: quando o protagonista sai do seu lugar comum, da sua zona de conforto, em busca de um objetivo, iniciando assim a jornada. Normalmente ele é incitado por alguém a ir à aventura, provavelmente pelo seu Mentor.
A Iniciação: o herói passa por testes, obstáculos e adversário que se colocam entre ele e o objetivo. Cada teste e obstáculo é uma superação dos limites do herói. Aqui ele também encontrará seus futuros aliados.
O Retorno: depois de atingido o objetivo, ainda que este mude ao longo da jornada, o herói volta para casa com o elixir, que pode ser um prêmio, um aprendizado, um poder mágico. Ele compartilhará do elixir com a sociedade de onde ele saiu e a transformará.
Campbell se entusiasmava com Star Wars, por conter uma mitologia tão forte e inspiradora, capaz de falar a diferentes gerações. Mas ler ou ouvir Campbell nos faz pensar se o que realmente conta é escrever uma história de sucesso… ou escrever uma história útil. Você pode usar a estrutura de Campbell, assim como outras que apresentaremos aqui, mas o mais importante de tudo é analisar se estamos percorrendo a nossa Jornada do Herói para que ela se reflita de forma real e honesta em nossas histórias e façam algum sentido para o leitor, e não seja apenas mais um mero “entretenimento” enlatado.
Em edições futuras abordaremos a Jornada do Herói em detalhes, visando sim oferecer o conhecimento para estruturar uma história de forma que o ser humano a identifique como autêntica por conter os estágios naturais que encontramos ao longo de nossa vida. Mas, acima de tudo, encorajamos uma reflexão sobre sua própria jornada. Afinal, como diz o mestre Robert McKee, “histórias são uma metáfora para a vida”. O leitor procurará a verdade em suas histórias, e essa verdade precisa ser autêntica em você.
Até lá.
Bibliografia recomendada:
- O herói de Mil Faces
- As Máscaras de Deus
Videografia:
- O Poder do Mito










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Parabéns pelo texto. Muito bem construído!
Espero que alcance ao seu público alvo e que seja de grande ajuda a todos.
Abraços!
[...] Matéria gostosa de ler sobre o mesmo assunto: http://www.quadrinize.com/2010/08/12/materia-do-mes-a-jornada-do-heroi-ou-o-monomito/ [...]