Personagens – A “Balança da Virtude”

Written by  //  setembro 13, 2010  //  Personagens  //  5 Comments

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Sabe aquelas pessoas perfeitas, totalmente virtuosas, sem defeito algum? Pois é, vou te contar um segredo: elas não existem!

Em nosso artigo sobre as boas ideias para o roteiro, falamos das histórias como uma metáfora para a vida, na qual o público identificará similaridades com a realidade e consigo mesmo. O primeiro nível onde isso ocorre é nos personagens. Se o público sentir que os personagens não soam minimamente reais, ele afastará da obra.

Qualidades e Defeitos

Se pessoas perfeitas não existem – e todos sabemos disso – é uma conclusão óbvia de que personagens perfeitos soam falsos. E como histórias também são sobre superação para se atingir um objetivo, a perfeição vai gerar um “não-enredo” (o que é enredo?). A história será chata, maçante, ensossa e sem propósito.

Então precisamos de defeitos. Isso não tornará seus personagens mais realistas, mais humanos.

Claro que não apenas de defeitos viverá a população de suas histórias. Eles também precisam de qualidades. Afinal, todos tem qualidades, talento e vantagens. Lidar com qualidades/virtudes e defeitos/desvirtudes é como usar uma “Balança da Virtude” a qual você faz pender para o lado que quiser, ou busca o equilíbrio.

Existem alguns personagens exemplares para ilustrar melhor como podemos trabalhar esse dualismo de qualidades e defeitos.

Em Naruto, o protagonista é uma criança que está bem atrás dos seus colegas e rivais em quase todos os aspectos. É incompetente, devagar para aprender, ingênuo, “burro”, desatento, distraído, espalhafatoso quando sua tarefa exige discrição, não consegue dominar nenhuma das técnicas que aprende. No entanto, ele se preocupa com seus amigos, é altruísta, coloca os interesses dos outros acima dos seus, extremamente disposto e perseverante e tem o incrível dom de fazer com que quase todos que passam por seu caminho se tornem seus amigos. Até mesmo alguns dos mais terríveis vilões. Ele adota a frase de Rock Lee, outro personagem com características parecidas: um fracassado derrotará um gênio com trabalho duro. Em quase todos os personagens da série, o dualismo tende a ser equilibrado.

Naruto

Ikari Shinji, de Evangelion, é repleto de defeitos e limitações. O protagonista da série demonstra, durante muito tempo, muitos defeitos e limitações. Inseguro, medroso, covarde, passivo, acomodado, traumatizado, indiferente, solitário com grandes dificuldades de se relacionar com outros, desinteressado, depressivo, angustiado… a lista é grande. Shinji não se importa com nada. Ele aceita sua missão por motivações duvidosas. No entanto, ele costuma ser sincero e sua amizade com Touji Suzuhara e Kensuke Aida mostram sua compaixão e gentileza. Em certo ponto da série, Shinji busca superar suas dificuldades. No entanto, a balança da dualidade pende drasticamente para as desvirtudes e limitações. Todos os personagens da série tem essa tendência.

Ikari Shinji - Evangelion

Já a série Heroes teve personagens overpowers e muito virtuosos. Na primeira temporada, Peter Petrelli é um personagem com muitos poderes, muito virtuoso, abnegado, disposto e corajoso. Ele pode absorver os poderes de qualquer “super” com quem tiver contato. Suas únicas limitação é sua ingenuidade e imaturidade e ter dificuldades de usar e controlar seus poderes, o que poderia destruir Nova York. Ele realiza uma jornada condizente com o personagem na primeira temporada, aprende a superar suas (poucas) limitações e salva o mundo. Um final que seria quase perfeito se não retornasse nas temporadas seguintes (e a ideia original do criador era que cada temporada trouxesse personagens diferentes, e não os mesmos). No entanto, retornou, agora com novas limitações que funcionariam caso não tivesse descaracterizado o personagem. Percebem que quando a balança tende para o virtuosismo, corremos o risco do fracasso? O personagem começa a apresentar problemas e prejudicar a trama, como ocorreu durante toda essa série e foi um dos motivos para sua queda de audiência e cancelamento.

Peter Petrelli - Heroes

Lidar com a Balança do Dualismo é como criar um personagem de RPG. Você tem uma quantidade de pontos, e quanto mais investi-los em um atributo (qualidade) menos você terá para investir em outro (gerando defeitos e limitações). Se a balança pende para o virtuosismo, você tem heróis clássicos, mas correndo risco de se tornarem rasos, ensossos, descartáveis e superficiais. Se pender para as desvirtudes, seu personagem pode se tornar um anti-herói, exigindo habilidade para lidar com ele no futuro. Talvez o recomendável para iniciantes seja um bom equilíbrio.

Ragnarok

Em Ragnarok, há um gráfico que mostra como o jogador está distribuindo seus pontos iniciais entre os seis atributos (força, inteligência, sorte, dextreza, agilidade, resistência).

A dica para elaborar a Balança da Virtude do seu personagem é criar listas. Assim:

Qualidades/Virtudes……………………………………Defeitos/Desvirtudes

Coragem………………………………………………….Medo

Disposição……………………………………………….Preguiça

Força………………………………………………………Fraqueza

Altruísmo…………………………………………………Egoísmo

Inteligência………………………………………………Burrice

Agilidade………………………………………………….Lentidão

Poder………………………………………………………Sem poder

Fama………………………………………………………Ninguém conhece

Riqueza……………………………………………………Pobreza

Bondade………………………………………………….Maldade

Carisma…………………………………………………..Antipatia

Gentileza…………………………………………………Descortesia

Educação………………………………………………..Má-educação

Boa reputação…………………………………………..Má-educação

Talentos………………………………………………….Falta de talento

Dons especiais………………………………………….Falta de dons

Amabilidade…………………………………………….Odiosidade

Humildade………………………………………………Orgulho/arrogância

Confiança……………………………………………….Insegurança

Esse é apenas um exemplo. Crie sua própria lista baseando-se na sua experiência e exercícios de observação de pessoas para criar personagens.

Terminada a lista, cruze qualidade com defeitos. Imagine um personagem ao mesmo tempo corajoso, porém egoísta. Ou Altruísta, porém medroso. Imagine outro gentil, porém burro; outro poderoso mas preguiçoso. Apenas essas duas características já fazem surgir na mente algumas cenas interessantes, não é?

Agora, que tal: Forte, inteligente, ágil, mas preguiçoso, egoísta e ninguém reconhece. Um personagem assim teria a tendência de usar suas qualidades para proveito próprio e seu objetivo seria ser reconhecido. Mas, perceba, como ele tem muita vantagem física e mental, precisei colocar uma desvantagem que o limita. Se ele não fosse preguiçoso seria muito difícil alguém competir com ele. Isso tornaria a história chata.

Claro que essas características devem estar a serviço da sua ideia original para os personagens. Não é aconselhável criá-los a partir da “Balança da Virtude”. Crie primeiro o personagem para então usar a balança para testá-lo e, se preciso for, acrescentar qualidades e/ou defeitos.

No entanto, a necessidade de defeitos não quer dizer que os personagens não possam lutar contra eles e vencê-los ao longo da história. Isso é muito bem explorado em animes como Naruto e Rurouni Kenshin, em que os personagens estão sempre buscando o aperfeiçoamento e evolução.

Mas apesar de sabermos que todos tem seus defeitos, nem sempre queremos que saibam quais são os nossos. Esse é o assunto do mês que vem.

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About the Author

Roteirista, escritor e mau-humorado de plantão. Se dedica há tanto tempo a auxiliar os iniciantes que resolveu criar um blog contendo tudo - Sim, TUDO - o que falta aos autores nacionais. Para realizar essa missão, partiu para o Egito em busca da Pedra Filosofal. Oferece aulas e palestras sobre escrita criativa.

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5 Comments on "Personagens – A “Balança da Virtude”"

  1. Nico outubro 2, 2010 às 1:15 pm · Responder

    Sou muito fã de shonem! E eu sei bem q eles são BASTANTE clichês. Mas, eu penso que é mais interessante ver novos personagens em situações que já estão manjadas – pq, mesmo sendo situações clichês, as ações e reações dos personagens mudam a cada título.

    Mas, ao passo que sou muito fã de Naruto, DBZ e outros… Tb ADORO aquelas histórias nem um pouco mainstream como Death Note e Bakuman – esse último é o melhor! Quem naum conhece deveria procurar!

    Bem, acho que diferente dos gênios – Tsugummi Ohba, Yoshihiro Togashi… – tenho que me matar pra escrever algo que preste – mas eu sempre consigo.

    Adorei o post e me desculpem por escrever tanto…
    Estou torcendo por vcs, Bjus. :3

    • Quadrinize outubro 2, 2010 às 8:59 pm · Responder

      Que isso, nós adoramos comentários, o Editor se alimenta disso, sabia?
      Sobre cliches, já leu o post sobre o assunto, explicando a diferença entre clichês e convenções de genero. Clica em “clichê” no menu ao lado.
      Você vai entender que nem tudo o que chamam de clichê, é de fato. E o mais importante é a RESOLUÇÃO da situação, e não tanto a situação em si. A resolução é que tem que ser original e criativa.
      Mais uma vez obrigado por ser leitora tão voraz e entusiasmada de nossa revista o/
      Vai concorrer ao concurso?

  2. Thiago novembro 7, 2010 às 1:43 pm · Responder

    Construir bons personagens é mais difícil do que parece. Bem, acho que os personagens mais marcantes são aqueles que tem defeitos bem visíveis ,e mesmo assim, agem de acordo com o que acreditam (muitas vezes confrontando tais defeitos) em busca de seus objetivos.

    Parabéns pelo site…

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