Gêneros – A todo vapor, a ficção científica steampunk
Written by PJ Brandão // março 22, 2011 // Gênero // 7 Comments
Longe, do deserto, vem vindo um grande rastro de poeira, aproximando-se da cidade em alta velocidade. O xerife sai da delegacia. Do outro lado da rua de terra batida, alguns bêbados saem do Saloon. As mulheres em seus vestidos ricamente ornamentados, que andavam pela rua, param, e também observam aquele objeto que chega cada vez mais rápido àquela pequena cidade do oeste dos Estados Unidos. Mais rápido. Mais próximo. Chega. Em frente ao xerife, o veículo que levantava poeira segundos antes para. Uma nuvem amarelada cobre a tudo, mas logo se dissipa. É uma carruagem puxada por um único cavalo. Mas não um cavalo comum. Um cavalo feito de aço, soltando vapor por entre as juntas, pelas narinas, preto, com olhos ora vermelhos ora amarelos em brasa. Um demônio corredor feito de ferro. De dentro da carruagem sai o mensageiro do Estado. Com uma perna visivelmente debilitada, talvez por guerras de outrora, cada passada cambaleante possui como trilha sonora um pequeno silvo hidráulico. Ele chega próximo do xerife e o entrega um envelope, selado com as iniciais do governador…
É mais ou menos assim o universo Steampunk. O gênero, cujo nome advém da literatura ciberpunk, mudando-se o prefixo para “steam” (vapor), é a junção de dois aspectos que o transformam em uma estética ficcional das mais atraentes: uma narrativa de época e uma tecnologia avançada para os padrões de então.
Em uma época anterior à que vivemos, em um momento da história da humanidade no qual a fonte de energia primordial é a térmica, a tecnologia avançou de maneira incrível. Veículos, aparatos cotidianos e outros aparelhos evoluíram. O homem e a máquina, que no nosso 21º século já possui um caráter um tanto quanto simbiótico, no Steampunk é uma visão recorrente, e tudo impulsionado pelo vapor.
O Steampunk é baseado na época de Julio Verne e HG Wells, autores cujas obras são determinadas como prototípicas do gênero. Ao meu ver, o único ponto que realmente não caracteriza a obra desses autores e de outros da época como essencialmente steampunk é o fato de que aquilo que eles escreviam era REALMENTE o futuro que eles pensavam, por mais ficcional que fosse.

Dirigíveis, carruagens, navios, locomotivas com visual e tecnologia caprichados são veículos recorrentes nas histórias do gênero.
Visualmente, a estética é rebuscada, típica da era vitoriana. O design dos objetos, dos veículos, das armas, das roupas, possuía uma beleza imensa, repleto de arabescos. A art nouveau é uma referência constante e praticamente obrigatória nas obras de Steampunk, devido à sua complexidade e beleza que marcou bastante a época e até hoje possui fãs (eu sou um deles).
Os ideais progressistas estão quase sempre presentes nas obras Steampunk. Com os adventos proporcionados pelas tecnologias a vapor, os homens e mulheres da sociedade possuem um brilho no olhar característico de quem percebe o quanto o mundo está progredindo, e com essas características, até hoje o gênero conquista fãs assíduos, que podem ser considerados integrantes da subcultura steampunk.
Esse movimento cultural pode ser encontrado em várias metrópoles do mundo, com estusiastas da estética retrofuturista que adentra em aspectos sociais como moda, dança e outras manifestações. Aqui temos, por exemplo, o Steampunk Brasil, site sobre o gênero, e o Steambook, uma rede social para amantes desse movimento.
As obras de Verne e Wells, como dito anteriormente, são uma ótima forma de conhecer os primórdios desse gênero. No audiovisual, temos, por exemplo, filmes como Van Helsing, As Loucas Aventuras de James West, De Volta Para o Futuro III e a animação Steam Boy, do mestre Katsuhiro Otomo. Os animes Samurai 7 e Fullmetal Alchemist também são ótimo exemplos. (Obs: é interessante ver em diferentes obras como o Steampunk acontece de forma peculiar a cada região do mundo, afinal Europa, Américas, Ásia e as demais localidades do globo devem se comportar de maneira diferente, tanto no aspecto cultural quanto social, ao advento das tecnologias a vapor).
Nos quadrinhos também se tem alguns exemplos de peso. A Liga Extraordinária, do querido Alan Moore, é uma obra que trabalha muito com as evoluções tecnológicas em pleno século XIX. Iron Wolf, ilustrada por Mike Mignola, que também ilustra Hellboy, é outro exemplo de história em quadrinhos do gênero. Aliás, o próprio Hellboy, personagem cujas histórias se passam na atualidade, possui muitos elementos Steampunk.
É comum vermos versões Steampunk de heróis consagrados dos quadrinhos. É uma estratégia constante de equipes criativas para aumentar o leque de narrativas sobre um personagem já muito conhecido dos fãs. Mudar os personagens de época é um exercício muito interessante, como eu mesmo escrevi outrora aqui para o Quadrinize.
Talvez devido à sua beleza e classe, além de toda uma imensa gama de possibilidades narrativas, o Steampunk é um dos mais incríveis e recorrentes gêneros de ficção científica existentes.
Bem, leitores da Quadrinize, espero que tenham curtido a postagem. E aí, vocês gostam de Steampunk? O que vocês acham mais legal nesse gênero? Comentem, e aproveitem pra dizer qual o próximo gênero de ficção científica que vocês querem ver aqui pelo Quadrinize. Até a próxima, gente boa!

















7 Comments on "Gêneros – A todo vapor, a ficção científica steampunk"
demais!este foi o artigo mais completo sobre gêneros,gostei muito dos links e as ilustrações.
o que sempre me facinou nesse gênero foi ambietação em si,eu acho q isso q atrae a maioria das pessoas
Esse gênero tem uma singularidade tão fascinante de cenário, vestuário e ambientação em geral; cores mortas como verde-lodo, tom de terra, cobre ferrugem; personagens caricaturados, com uma formalidade clássica mas levemente rabuscada.
Enfim, isso me deixa descontroladamente excitado para leituras futuras. Belo texto, bastante completo. Gostei da referência a Julio Verne. Inclusive, gostaria de citar um blog que disponibilza adaptaçãoes das obras de verne, a ‘Biblioteca Julio Verne’, onde eu colaboro. Dá uma olhada:
http://juliovernebrasil.blogspot.com/
Abç. Obg pelas dicas de sites.
Obrigado pela dica, Edivelton. Vou checar seu blog com certeza.
É possivel pagar as contas com quadrinhos?
Gostaria de saber tambem se vocês podem me mandar um roteiro, nem precisa ser grande, para que eu possa desenhar e reenviar para analisarem e dizer se tem salvação?
Possível é. Fácil? Não mesmo.
Tenho histórias curtas de 6, 8, 10 paginas… se quiser, posso te mandar, mas melhor que isso, seria enviar alguns desenhos que vc tem prontos, pois a partir daí já posso te dar dicas sem vc perder tempo fazendo outros novos.
Eu tenho alguns desenhos avulsos, sem ser em arte seqüencial.
Se servir aonde eu posso mandar?
quadrinize@hotmail.com