Desenvolvendo o projeto – Roteirista x Desenhista (parte 2)
Written by O Editor // julho 12, 2011 // Criação e Roteiro // 9 Comments
Esse texto é parte da série Desenvolvendo o Projeto. Antes de ler confira os textos anteriores. Veja a lista dos artigos da série:
1 – Roteirista x Desenhista (parte 1)
Escolhendo o desenhista
Anteriormente, falamos sobre a apresentação do projeto para os desenhistas candidatos. Agora que você conseguiu despertar o interesse de alguns, é hora da escolha. Todo roteirista deve saber que a arte deve “casar” com o texto. Os desenhos, como um complemento da história, devem criar todo o clima que o roteirista quer transmitir para o leitor. Portanto, é fundamental saber escolher a arte que mais tenha a ver com o gênero da história, bem como com a ambientação, personagens, tema e com a idéia central.
Isso mesmo, não basta ter a ver com o gênero se você, roteirista, gosta de desconstruir. Por exemplo, o anime Madoka pode parecer uma simples história de mahou girls, mas se a Naoko Takeushi a tivesse desenhado, toda a proposta da série iria pelo ralo. É preciso levar em conta todos os elementos da história, do início ao fim, para escolher o ilustrador que dará o visual, o clima ideal para sua HQ. Isso diz respeito ao traço, técnica, ferramentas utilizadas, referências, preferência de cores. Pergunte aos desenhistas sobre essas questões.
Mas também é muito importante levar em conta não só o estilo pessoal do ilustrador que você viu, mas sua versatilidade. Deixe claro que você quer conhecer tudo do que ele é capaz de fazer, não apenas o que ele acha que você gostaria de ver.
Desenhistas também devem avaliar muito bem o teor da história e perguntar ao roteirista qualquer coisa que não tenha ficado clara. Peça referências. Todo autor tem histórias nas quais se inspira ou que tenha o mesmo clima, mesma estética, visual. Ou uma mistura de referências. Eu gosto de indicar HQs e filmes para o ilustrador captar bem a estética que eu quero para a HQ.
Mas claro que nada substitui uma boa conversa sobre a história e as pretenções do autor. O que ele pretende despertar no publico? Que tipo de reações, sentimentos? Tudo isso deve influenciar na arte.
Vale lembrar que uma equipe pode contar com pessoas diferentes para desenho, arte-final, cores, retículas, diagramação… isso aumenta as chances de se atingir o resultado esperado. Ao contrário do que se imagina, mais de um ponto de vista sobre a mesma obra pode dar resultados surpreendentes.
A Dupla (ou equipe) está formada. E agora?
O próximo passo é esboçar personagens. É aí que começa realmente a relação e interação entre os artistas, coisa que pode ser complicada, porque um é perito em palavras e o outro, em imagens. É muito comum o desenhista ter que criar vários esboços e nenhum deles se aproximar do que o roteirista pretende. Mas há um detalhe importante aqui: flexibilidade.
Eu vejo esse relacionamento muito parecido com o diretor de cinema e o ator. Ao contrário do que muita gente deve pensar, os (bons) diretores não ficam dizendo como o ator deve fazer tal personagem por mais que ele (o diretor) tenha em sua mente exatamente como quer que o personagem seja. O ator é um interprete, e ele precisa sentir que tem liberdade de interpretar o personagem à sua maneira, com suas escolhas. “Escolha” é um termo usado no cinema. Os atores ensaiam em casa diversas possibilidades de interpretar e, ao chegar no set de filmagem, usará apenas uma delas. Essa é a escolha. O bom ator é o que faz boas escolhas.
Assim é o (bom) desenhista. Ele lê a ficha do personagem, suas características físicas e psicológicas, preferencias, modo de falar… e interpreta. Por mais que o roteirista goste de descrever minuciosamente todos os poros do nariz da personagem, enviar imagens de referencias, rabiscar esboços… ele deve compreender que o desenhista pode ― e deve ― fazer sua própria interpretação.
O roteirista precisa dar a ele a sensação de que é livre para interpretar. Se o desenhista for bom, as chances de que isso resulte em grandes surpresas positivas para o roteirista são grandes. Digo por experiência própria. Quando o desenhista tentava fazer exatamente aquilo que ele achava que eu queria ver, o resultado era um fracasso total, um character design que não podia ser aproveitado para nada. Mas quando ele lia meu texto e interpretava aquilo na sua mente e reproduzia o que interpretou da maneira dele, no estilo dele, o resultado sempre me surpreendeu.
Nessa fase do projeto, vocês devem fazer esboços rápidos, sem nenhum tipo de arte-final ou cuidados com acabamento, com personagens em diversas posições e expressões faciais. São os famosos models sheets (existe uma pequena confusão entre model sheet e blue print, que é mais usado para referencias de animação, principalmente modelagem 3D). Basta procurar no google para entender o tipo de esforço que deve ser feito aqui. Isso não é importante apenas para o roteirista dizer se está bom ou não. Valerá como referencia para todo o processo de desenhar a HQ. É altamente recomendável desenhar muitas vezes os personagens antes de começar a fazer a HQ propriamente dita, para que um mesmo personagem não comece a história com uma aparência e termine com outra.
Nessa etapa também se define roupas, acessórios, cores (se houver) e comportamento, gesticulação, postura. Veja alguns exemplos (clique para ampliar):
















9 Comments on "Desenvolvendo o projeto – Roteirista x Desenhista (parte 2)"
Tale Spin!!! Eu adorava esse desenho!
Muito bom esse texto, e vai ser bem útil quando eu tiver que falar com um desenhista em um projeto que estou trabalhando. ^^
Ótimas dicas!! xD
Vão ser úteis pra este aqui!!
Putz gostei
a parte sobre desenhar os personagens antes em diversas perpesctivas eu nunca tinha feito
vou começar a fazer.
Eu acho que se ganha mais se esse tipo de informação técnica explicativa (de “o que é um model sheet”, “o que é um blue print”, “o que é um character design”, “o que é isso ou aquilo” [são DEZENAS ou CENTENAS de técnicas e métodos com nomenclaturas específicas], COMO se fazem essas coisas, o porquê delas, e em que etapas de produção deveríam sem realizadas…) estivesse em OUTRA COLUNA, relacionada a esse tipo de técnicas de Desenho e Criação de projetos;
Ao meu ver, esta coluna NÃO deveria tentar explicar essas etapas complexas e MUITO específicas; ela deveria apenas continuar contando a história da evolução de uma colaboração ou da criação de um projeto de uma história, apenas CITANDO essas técnicas/métodos quando necessário, por exemplo: “A esta altura do campeonato, seria interessante o desenhista desenvolver um model sheet do personage.” Porém, sem a pretensão de explicar o que é isso e como se faz isso. Daí… pode-se usar links pela Internet toda, entre artigos/tutoriais/vídeos realmente bons, que explicam essas técnicas/métodos, ou também: desenvolve-se uma coluna especial pra essas coisas.
Do jeito que está, a tecnicidade em excesso, parando em detalhes (que a priori já deveríam ser conhecidos por sinal pelos leitores: o que é um model sheet?), não ajuda no que REALMENTE deveria interessar nesta coluna. Esse desvirtuamento não é interessante na minha opinião. Mas talvez eu seja um caso à parte.
Não estou dizendo pra ocultar informações,
estou dizendo para focar no que realmente importa,
e o resto que não caberia explicar aqui nesta coluna, “linkar com a vizinhança especializada”.
Vou considerar.
Eu não conheço direito todas as colunas.
Mas seria interessante se houvesse um colunista (de preferência um desenhista profissional) especializado nessa parte: etapas de desenvolvimento e de produção de um projeto que envolvam Desenho.
Eu até tenho competências para isso mas… o meu foco atualmente é outro. É melhor encontrar um especialista atuante e motivado.
Eu nunca deixei de procurar por esse profissional motivado. Mas tá meio em falta
Tirando eu mesmo para tal coluna (prq já prevejo pra mim o esquema com a Animação, lembra? o que por si só já seria MUITO trabalhoso, se for pra ficar bom), eu até teria alguns nomes de pessoas a indicar.
Seria interessante.