Na primeira parte dessa série sobre arquétipos, focamos as funções dramáticas básicas para termos uma melhor compreensão das possibilidades de papéis a serem desempenhados no momento da criação dos personagens.
A ideia básica dos arquétipos é que eles são fragmentos da psiquê humana que fazem parte do consciente coletivo. Não é uma questão meramente cultural ou de personalidade. Durante toda a história da humanidade, para Jung – o sujeito que começou a falar dessa maluquice toda – as manifestações dos MESMOS arquétipos se repetiram em mitos e sonhos, representando as mesmas necessidades básicas dos seres humanos e apontando para a mesma jornada que cada um deve seguir. Nisso, vemos uma função primordial das histórias. Arquétipos são universais.
E existem muitos. Segundo Jung, “há tantos arquétipos quantas são as situações típicas na vida”. Ele mesmo disse que é inútil querer fazer uma lista, mas isso em termos psiquiátricos. Nós, que utilizaremos esses conceitos para nossas histórias, conheceremos alguns, sem nos preocuparmos muito com o academicismo ou com a aplicação metodológica na psiquiatria. Somos apenas crianças brincando com nosso “lego de letrinhas”
Existem muitos “sistemas” de arquétipos, que são algumas listas baseados em algo pré-existente, que procuram fazer a abordagem mais ampla possível do inconsciente coletivo (por exemplo, arquétipos baseados nos signos do Zodíaco ou em animais). Claro que nenhuma é totalmente satisfatória, mas é bem pragmático e útil. Falaremos de alguns futuramente. Primeiro vamos conhecer o sistema mais utilizado pelos roteiristas. São alguns arquétipos bem básicos encontrados facilmente na maioria das histórias. Reparem bem em como eles se relacionam com as funções dramáticas dos personagens, embora essa abordagem seja diferente.
HERÓI
Segundo Joseph Campbell, o herói é aquele cara que sacrifica a si mesmo para salvar um povo, uma pessoa ou por uma ideologia. É a atitude que mais se aproxima das palavras de um certo Paulo: considerar o próximo como mais importante do que a si mesmo. Essa é a essência do herói e é comum nas histórias que ele perca tudo o que possui: amigos, esposa, filhos, bens, conforto, e até a própria vida, para que cumpra seu objetivo.
O primeiro exemplo que me vem à mente é desconhecido por muitos: Mutou Kazuki, do mangá/anime Busou Renkin, de Nobuhiro Watsuki. Sempre considerando seus amigos, colegas e até inimigos (humanos) como mais importantes do que a si mesmo, não mede as consequências dos seus atos para salvar o planeta, abrindo mão até mesmo da garota que ama. Esse é um dos casos de heroísmo extremo, não muito comum nos dias de hoje.
Claro, os exemplos são óbvios: Superman, Naruto, Seiya, Capitão Nascimento… você já pegou a ideia.
Mas repare que não precisa ser uma história de ação/aventura para que haja um herói. Pode ser até uma comédia romântica, como Ah, My Godess!. O protagonista dessa série, Keichi, tem atributos de herói, pois se dedica e se sacrifica por outra pessoa, assim como Jintan, da excelente série Ano Hana.
Também é importante ressaltar que o herói está em uma caminhada de aprendizado, sua jornada é de transformação de consciência e atitude em relação ao próximo. Ele não começa a história como alguém pronto para a aventura. Ele só se tornará pronto quando a história terminar.
Existem aqueles que afirmam que histórias de sucesso são um reflexo da sociedade que aprovou aquela história ou um retrato de sua maior necessidade. E talvez você tenha notado que o arquétipo do herói é o mais explorado nas histórias e o que mais fascina o público ao redor do mundo. O que isso diz a respeito de nossa sociedade?
Confira mais sobre o fascínio que o arquétipo do herói nos exerce na coluna A Voz do Editor, da Reivsta Fantástica.
MENTOR
O Mentor também é simples de entender (todos são). Ele geralmente é aquele velhinho experiente que ensinará seus truques de jedi para o herói. Por falar em Jedi, Obi Wan e Mestre Yoda encarnam perfeitamente o papel de mentores. Assim como mestra Genkai, Jiraya…
Mas o Mentor nem sempre é representado dessa forma, ou tem essa função específica. Quer dizer, ele sempre ajudará o herói, mas existem várias formas para isso. Mestra Genkai treinou Yusuke meio a contra-gosto e lhe ensinou seus golpes mais poderosos. Urd, em Ah, My Godess! foi uma mentora na “arte do amor”, dando conselhos e técnicas duvidosas para o protagonista. O “Papai Noel” de Nárnia foi um mentor do tipo doador de presentes, deu as armas com as quais os heróis lutariam pela justiça, assim como a Priscila em Rayearth. Em Peacefull Warrior, o mentor apelidado de Sócrates é do tipo guia espiritual, que orienta na caminhada de consciencia do protagonista. Galdalf é do tipo conselheiro e sábio, que conhece o caminho pelo qual o Herói irá trilhar, mas não pode ir com ele.
Muitas vezes o mentor foi herói em sua própria época, tendo completado ou fracassado em sua missão. É requisitado então que ele auxilie a “nova geração de heróis”. Campbell diz que o Mentor também pode ser uma força sobrenatural. Esse arquétipo representa o as forças do universo a favor do herói.
ARAUTO
É o agente de mudança, o que chama o herói à transformação e a se jogar de cabeça na aventura. O arauto muitas vezes é o que trás o Chamado à Aventura (etapa da Jornada do Herói). Pode ser uma situação ou fato sobrenatural que empurre o herói a tomar atitudes… heróicas.
É Qui-Gon Jinn que chega do nada lhe dizendo que você será um super-jedi. Ou uma deusa que sai de dentro de um espelho após você discar o numero errado. Um armário que lhe leva a um mundo mágico, um gigante que entra na sua casa, no seu aniversário, com uma carta dizendo que você é um bruxo. Um mago que vai à sua vila dizendo “que tal ir à uma grande aventura?” Ou sua própria morte e ressurreição, que será o início da sua aventura – principalmente se a morte for uma garota simpática de cabelos azuis.
O importante é que o Arauto arranque o herói de sua realidade, de sua zona de conforto, impelindo-o a agir e enfrentar o primeiro guardião do limiar.
GUARDIÃO DO LIMIAR
São os primeiros desafios do herói. Sabe quando os lacaios fracotes do vilão são enviados para deter o mocinho, que ainda é inexperiente? Pois é, essa é a representação clássica do guardião do limiar. Muitas vezes esse sujeito se tornará um aliado do herói. Ou é um aliado que irá testa-lo.

Kido - Yuyu Hakusho - um dos guardiões do limiar que na verdade é um aliado mas está ali para testar os heróis.
Nem sempre é uma pessoa. Pode ser a natureza ou situações controversas.
CAMALEÃO
Ele é a mudança. Ou a simulação. Você nunca sabe qual real papel ele está desempenhando. Uma hora parece ser um Guardião do Limiar, outra hora dá uma de Mentor, depois banca o Sombra… é sempre alguém difícil de discernir. É aliado ou não? De que lado ele está? Sempre fica uma dúvida – tanto para os demais personagens quanto para o leitor. E isso é importante, pois o principal é que o leitor fique confuso quanto a esse arquétipo. Isso aumenta a tensão e a curiosidade do seu público.
Voltando a mencionar Busou Renkin, ele é o Chouno Koushaku (conhecido como Papillon). Gólum também encarna esse arquétipo. Skuld, em Ah!, Megumi Sama, ou Yukiatsu em Ano Hana, Itachi Uchiha em Naruto, o Cavaleiro de Gêmeos, assim por diante.
SOMBRA
Sombra talvez seja o aspecto mais fascinante de uma psiquê. Sim, pois lembre-se que na psicologia de Jung os arquétipos são fragmentos da psiquê de um indivíduo. O sombra nada mais é do que o “lado negro” de cada ser humano, escondido pela persona (falaremos disso em breve), o lado oculto da lua. É nosso instinto mais primitivo, que não está de acordo com os padrões estabelecidos como “civilizados”, portanto ficam enterrados.
Nas histórias, o sombra aparece como antagonista. Ele é o lado negro do protagonista, por isso geralmente o vilão é o oposto do herói. Quanto mais o herói é altruísta e virtuoso, mais o vilão será mesquinho e maligno. É sábio que haja um equilíbrio. Vilões que agradam o público tem seu lado não-tão-maligno. Quando isso ocorre, para balancear os arquétipos herói-sombra, dê a dose de defeitos em seu protagonista. Geralmente o herói pode ver a si próprio no vilão e acaba se identificando. Nesses casos, a relação entre os dois é mais intensa e eles passam a se respeitar, ou o herói tenta salvá-lo.
Os mais perfeitos exemplos que posso recordar de Herói/Sombra são: Batman x Coringa, Charles Xavier x Magneto, Luke Skywalker x Darh Vader e… bem… para evitar spoiler, assista o filme Corpo Fechado, caso ainda não tenha visto. É obrigatório.
Muitas vezes o Sombra também encarna o Camaleão. É o caso do já mencionado Chouno Koushaku. Mas há histórias em que o próprio Herói manifesta em si mesmo o Sombra, como em Peacefull Warrior. E claro que não poderia deixar de mencionar Clube da Luta.
PÍCARO
Esse é um arquétipo um tanto raro ou mal explorado, infelizmente. Ele é responsável pelo alívio cômico, pois é geralmente representado por um palhaço ou um sujeito engraçado. Mas essa é a sua forma de se expressar. Na verdade, o pícaro aponta o dedo na cara da sociedade e do próprio herói, acordando-o para a realidade quando é necessário. É importante também que ele leve o próprio público a refletir. De certa forma, ele é o Trickster, que faz parte de um outro sistema de arquétipos que falaremos em breve.
Novamente, Chouno Koushaku exerce esse papel em Busou Renkin. Em algumas histórias, o Coringa também encarna esse arquétipo. Os castores em Nárnia. Creio que um dos melhores exemplos dos últimos anos tenha sido o burro de Shrek.
Este é apenas um dos muitos sistemas de arquétipos que você pode usar para sua história. Ele é de certa forma satisfatório, porque abrange grande parte da Jornada do Herói. Mas existem outros que você deve conhecer, que com certeza enriquecerá seu “repertório”.
Criar personagens de arquétipos diferentes é importante para que seus personagens se complementem de forma que sua história represente o processo de individuação.
Individua-o-quê? Calma, eu chego lá, um dia. (acho que nunca prometi tantos futuros posts como hoje, espero que eu cumpra)
Ps: Se algum entendido em Jung quiser acrescentar ou corrigir alguma besteira que eu tenha escrito, por favor, sinta-se a vontade e enriqueça esse artigo com comentários espertos.























Bom texto. Sucinto e claro.
Só achei que poderia ter citado MUITO mais exemplos de arquétipos (sei que dá trabalho).
Acho legal citar o Griffith, em Berserk; pois ele é, para a história, nesta ordem: GUARDIÃO DO LIMIAR, ARAUTO, MENTOR, HERÓI, CAMALEÃO, SOMBRA.
Na verdade, eu acho que hoje em dia, os tipos de histórias são TANTAS, que em muitos casos, é quase ridículo modelar personagens em função de um único arquétipo. Como Jung parece compreender bem: os arquétipos são apenas facetas de um mesmo indivíduo. Isso evidencia NÃO que todos os personagens (ou nós mesmos) sejam CAMALEÕES, mas que DETENHAM todos os arquétipos dentro de si, e quando apresentam determinado arquétipo em dado momento, não é uma mutação propriamente, mas a colocação de uma “máscara” (torna-se um arquétipo X) pré-existente dentre das… incontáveis possibilidades de arquétipos (psiquiátricos pelo menos).
E então estaríamos falando em um OUTRO nível de compreensão de histórias e personagens.
Assim, me parece evidente que, quanto maior a complexidade de um personagem, maior será o uso de diferentes “máscaras” (arquétipos) por parte do mesmo.
Claro… para simplificar, e ter uma visão essencial,
o HERÓI sempre será o HERÓI, o MENTOR sempre será o MENTOR, e assim por diante.
Mas esse tipo de história com arquétipos rígidos (ou rígidos demais) é um troço meio… desinteressante de um certo ponto de vista.
Então, só queria reforçar esse aspecto já mencionado no texto de qualquer modo [de que um único personagem é naturalmente capaz de apresentar qualquer um dos arquétipos].
Exato. Quanto aos exemplos, prefiro deixar os leitores procurarem por si mesmos. Só dei alguns para fins de melhor compreensão.
A única vírgula que coloco na sua observação é que sempre é bom definir um ou no máximo dois arquétipos quanto ao papel dramático do personagem, mesmo que ele apresente outros. Mesmo que o herói também apresente a Sombra (sempre interessante quando acontece), ele continua sendo o herói (ou um dos heróis) da história, pois você deve seguir a Ideia Governante.
Lembrei do Jack Sparrow como pícaro e o Cloud x Sephiroth como Herói x Sombra enquanto lia a matéria. Muito maneiro mesmo essas funções, porque mal ou bem você acaba se identificando em pelo menos uma delas, e com isso começa a descobrir as outras.