Zé Roberto, o BK, se foi. O que fica?

Written by  //  fevereiro 16, 2012  //  Nota  //  16 Comments

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Atrasou, mas não poderia deixar de mencionar a passagem de uma pessoa que me influenciou até certo ponto, e a muita gente que detesta admitir isso. Se não o entrevistei – estava nos planos – fica sendo ele o assunto do único post de Fevereiro na Quadrinize.

José Roberto Pereira, o BK, JRP, Lord Seth, Zé Roberto, ou “Preta Véia”, como gostava de se denominar, faleceu no dia 9 de fevereiro, às 15:oo horas. Isto não é uma homenagem e não entrarei na vibe do “depois de morto, vira gênio/querido/santo/amado“. Mas não poderia simplesmente ficar em silêncio. Para o bem ou para o mal, Zé Roberto influenciou pessoas e ideias.

É difícil falar sobre o José Roberto. Mais polêmico que mamilos, muitas vezes agressivo, zombador, incoerente, inconstante, contraditório, orgulhoso, às vezes preconceituoso. Criou muitos inimigos, desafetos e alguns seguidores. Como troll, fez escola. Comunidades na Internet aprenderam com ele a arte de depreciar o trabalho alheio. Mas nenhum desses “filhotes de BK” tem a percepção e propriedade que ele tinha para falar sobre alguns assuntos. Sobre outros, enfiava o pé na jaca e dizia bobagens. E não se importava com isso. BK não tinha medo de errar. Quero acreditar que, no fundo, suas palavras repetidas tantas vezes sejam verdadeiras: “eu não quero destruir o quadrinho nacional, eu quero melhorar”.

Acredito que toda a minha geração de otakus colecionava a Animax, revista que ele editou na década de 90, e uma quantidade considerável deixou de lê-la após a saída do BK, na edição nº 20, se não me falha a memória. Era a única revista do mercado dedicada exclusivamente à animação japonesa e não se limitava ao que passava na TV brasileira. Ou seja, era um manjar de conhecimento para nós, adolescentes nerds – na época, a palavra otaku ainda não era muito disseminada. Note que comprar a Animax era um momento especial, quase mágico. Para mim, era quase um ritual. Fãs clubes de animes e mangás surgiram, sonhos eram alimentados, uma comunidade se formou em todo o país. Revistas como Megaman e Hipercomix vieram daí. Nomes como Érica Awano foram revelados. E quando a moda ficou grande demais e tomou uma forma que BK repudiava, ele disse: ajudei a criar um monstro.

Me lembro que por volta de 2002 eu o encontrei em um dos grupos do UOL, na época em que ele trabalhou na MAD (até hoje não sei se ele editou alguma revista por lá). Ele me pediu para ilustrar uma sátira de Combo Rangers. Fiz duas páginas de HQ. Meu roteiro não agradou, ele queria algo bem pastelão, tipo Os Trapalhões. Eu não curti a ideia, pois gosto de piadas mais ácidas, e desisti. Até hoje não sei se foi a decisão correta.

Depois disso, só voltei a saber dele através do orkut em meados de 2008. Na época, ainda não havia muita gente que o imitava, mas eu já tinha meu próprio tom crítico e muita gente confundia minhas avaliações com as trollagens do Zé. Hoje, qualquer um perceberia a diferença. Eu jamais critiquei ou ofendi uma pessoa, e sim seu trabalho.

BK era assim, cheio de altos e baixos. Criticou, foi criticado. Processou e foi processado. Ele era ao mesmo tempo autentico e cheio de máscaras.

Em 2010 eu o conheci pessoalmente. Vi uma figura simpática, atenciosa, generosa até. Bem diferente do que esperava. Me pagou um lanche, mostrou alguns pontos de vista, deu dicas e fez um punhado de promessas e jamais cumpriu nenhuma. Bipolar? Mascarado? Sei lá. Era assim.

Tinha um lado meio anarquista, meio “rage against the machine”, que confesso apreciar. Ameaçou fazer tal qual Alexander Supertramp e queimar seus documentos. Taí algo que gostaria de ver. Era a favor da auto-publicação e independência editorial (embora ele mesmo não tenha dado esse exemplo). Uma questão polêmica.

Como obra, o BK deixou pouca coisa. Dois livros (Mundos Sem Sol e Mil Nomes) e algumas HQs de Megaman (se esqueci algo, me avisem). Estava desenvolvendo outros trabalhos que, espero, sua esposa Márcia possa levar adiante.

Existem muitas histórias para se contar sobre essa figura, e não serei eu a fazê-lo. Deixo aqui público minha visão sobre sua pessoa e minha curta relação com ele. Sem mimimis, sem receios e bajulações. Não adianta puxar o saco só porque ele se foi. Não adianta comemorar por termos um troll a menos. Ele mostrou coisas que podem ser úteis, disse coisas que devem cair no esquecimento. Cometeu erros e acertos que devemos observar para melhorarmos. Discordo de muitas de suas opiniões sobre mercado, principalmente o literário (algumas de suas afirmações me fizeram rir, outras, pensar). Suas dicas sobre criação eram boas, porém chegavam a um ponto em que se repetiam, sem se aprofundar em coisas mais interessantes. Jamais apreciei ofensas e críticas pessoais (e tive colegas e conhecidos que foram ofendidos além do nível tolerável, o que é um desgosto), mas quando tinha boa vontade sabia apontar deficiências, dar bons conselhos e apoiar uma obra de potencial.

Por fim, o principal motivo desse post: vamos refletir. Pelo o quê o JRP será lembrado? Por seus conselhos e ensinamentos sobre criação de histórias e pesonagens (tema recorrente em seus podcasts)? Por suas obras? Ou por suas infinitas trollagens? Será que, se ele passasse menos tempo trollando e insultando, não teria tido tempo para deixar uma obra mais vasta? O que fica para a posteridade? Qual o seu legado? Foi positivo ou negativo? O que ele conseguiu mais, somar ou dividir? Comente o seu ponto de vista (já adianto que ofensas póstumas serão sumariamente deletadas, também elogios vazios não fazem sentido).

Pra mim, fica uma sensação meio sem sabor. Nem isso, nem aquilo. Muito foi dito, pouco foi feito. Logo ele, que pregava o fim da “masturbação teórica” em prol da prática, que me aconselhou a criar ao invés de teorizar, não teve tempo de praticar muita coisa.

Ficam minhas condolências à família e espero sinceramente que a Márcia dê continuidade aos projetos.

Independente de gostar ou não de seu modo de agir, creio que ele viveu da maneira que quis e acreditava ser o melhor para ele, mesmo sem conhecer o “mistério” a respeito da vida, que mencionou em seus podcasts. O que me lembra uma música de Raul:

Não sei onde eu to indo
Mas sei que eu to no meu caminho
Enquanto você me critica, eu to no meu caminho
Eu sou o que sou, porque eu vivo a minha maneira
Só sei que eu sinto que foi sempre assim minha vida inteira

Não sei onde eu to indo
Mas sei que eu to no meu caminho
Enquanto você me critica, eu to meu caminho
Desde aquele tempo enquanto o resto da turma se juntava pra:
Bater uma bola!
Eu pulava o muro, com Zézinho no fundo do quintal da escola

Parceria:

About the Author

Roteirista, escritor e mau-humorado de plantão. Se dedica há tanto tempo a auxiliar os iniciantes que resolveu criar um blog contendo tudo - Sim, TUDO - o que falta aos autores nacionais. Para realizar essa missão, partiu para o Egito em busca da Pedra Filosofal. Oferece aulas e palestras sobre escrita criativa.

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16 Comments on "Zé Roberto, o BK, se foi. O que fica?"

  1. Joe de Lima fevereiro 17, 2012 às 12:59 am · Responder

    Tive minha cota de atritos com o BK, principalmente antes de eu assumir esse o meu pseudônimo, quando assinava alguns zines com o meu nome mesmo.

    Por conta dessas passagens, eu não estava na lista de fãs dele e tenho certas opiniões sobre o BK e sua filosofia que já comentei em alguns momentos.

    Não vou derramar lágrimas hipócritas aqui, tampouco vou tecer ofensas gratuitas e sem sentido.

    Meus respeitos a família. Quanto ao BK (e em consideração as revistas do Megaman que ainda tenho guardadas), minha manifestação mais sincera é um silêncio respeitoso.

  2. The Fool fevereiro 17, 2012 às 2:58 am · Responder

    Uma coisa que eu achava muito positiva no Zé é que tinha partilha de informação. Não tinha dessas coisas de “eu sei, é meu segredo, só libero por tantos dinheiros!”
    Muitas coisas obscuras que rolavam no meio editorial vieram a tona também.
    E parte da letra do Raul casou bem com o post!

    • Quadrinize fevereiro 17, 2012 às 4:06 am · Responder

      Verdade, faltou mencionar a exposição das tretas. Era bacana. Daria até pra fazer um site “Editorial Leaks”.

  3. cotrim fevereiro 18, 2012 às 7:12 pm · Responder

    o que mais me deixa triste é o fato dele só ter publicado dois livros

  4. Booger2 fevereiro 19, 2012 às 3:49 am · Responder

    Era um cara cujo a maneira de ser não fará falta (pelo menos no nosso mundo, não sei como era pessoalmente).

    Mas ele fez alguma coisa. Não muito. Nem tudo tão “bacana”. Mas foi lá e fez.

    Que sirva de lição e exemplo para nós, sobre como não ser e sobre como lutar pelo que acredita.

  5. Glauco CAON fevereiro 20, 2012 às 7:13 pm · Responder

    Infelizmente, não viveu o suficiente para reestruturar alguns de seus conceitos do século XX, de modo que pudesse ter sido uma melhor referência para brasileiros hoje em termos de autoria; porque uma coisa é certa: ele gostava de escrever, de pensar, e também de discutir; e isso publicamente.

    Faz alguns anos, também tive a ocasião de acompanhar, ou de discutir, inúmeros pontos de vista criativos da/com a figura na Internet. Coisas mais positivas do que negativas em geral.

    Acredito que no final da linha, apesar de toda sua profunda e particular visão analítica das coisas de seu métier, ele não conseguiu realmente enxergar as forças mais importantes que estão em jogo nessa altura do campeonato graças à revolução da Internet; levando-o assim a um caminho autoral incoerente e contraditório no meu ponto de vista.
    Talvez, se ele tivesse tido mais tempo, teria superado isso e dado O exemplo ideal para os próximos; pois creio que essa atitude altruísta tinha a ver com sua busca também, afinal, muito ele profetizou.

    • Quadrinize fevereiro 21, 2012 às 2:10 am · Responder

      Você o via como altruísta?

      • Glauco CAON fevereiro 22, 2012 às 1:53 am · Responder

        Senão totalmente [altruísta], então essencialmente.

        Enfim, pelo menos à distância (na Internet, na extinta revista Animax…) que é onde o conheci.

        Mas agora fiquei curioso…! Alguém NÃO enxerga assim??

        • Quadrinize fevereiro 22, 2012 às 5:39 pm · Responder

          Eu via assim no inicio, mas ele começou a insistir em dizer “eu não faço nada disso por vcs”, “eu não sou amigo de ninguém”, “eu não me importo” e coisas do tipo.

          Como eu disse, ele era contraditório.

          • Joe de Lima fevereiro 22, 2012 às 5:52 pm ·

            “Alguém NÃO enxerga assim??”

            o/

          • Glauco CAON fevereiro 22, 2012 às 8:50 pm ·

            Um altruísta sem-querer-querendo???

            É possível.

  6. Caio fevereiro 21, 2012 às 11:54 pm · Responder

    Bom, eu já faço parte de uma nova geração que descobriu muito com a internet, não tendo sido muito marcada por comprar as revistinhas nas bancas, apesar de ainda ter colecionado várias que não são tão antigas assim. Procurando tive acesso há algumas publicações dos anos 90 sobre animê e mangás, mas talvez por isso não tenha uma lembrança desse lado profissional, como editor, de J.R. Pereira.

    Fica o respeito e que descanse em paz.

  7. Ronaldo Rodrigues fevereiro 27, 2012 às 2:52 pm · Responder

    Como o tempo passa.

    So cheguei a ver o Ze em pessoa uma unica vez, na epoca da velha gibiteca henfil (nao me lembro se era a japan fury ou a animax que rolava nas estandes na epoca).

    A maioria da interacao que tive com ele foi atravez do forum animax (hospedado no site hajime do akita). O Ze era troll antes mesmo deste termo ter sido inventado. E pior que naquela epoca ainda achavamos que valia a pena escrever um monte tentando discutir nossos pontos de vista, heh. Pelo menos ele promoveu discussao, se mais nada.

    Com o passar do tempo parei de acompanhar ele, me concentrei em outos projetos como o Animecon e meu webzine, mas o nome dele sempre aparecia de vez em quando.

    Como o tempo passa.

    • Quadrinize fevereiro 28, 2012 às 12:42 am · Responder

      Passa, Ronaldo! Parece que foi há pouco tempo que tive contato com ele pela primeira vez, e já faz mais de 10 anos.

  8. Jet Fidelis março 7, 2012 às 7:44 pm · Responder

    Minha analise do Zé é simples. Ele não podia fazer tudo o que queria (ou por falta de grana, ou oportunidade ou por falta de tato social). Ele era anárquico por natureza e talvez fosse contraditório mais por obrigação da vida (ele tinha que trabalhar e sustentar a família). Mas sem querer mudar aquele pensamento dele “pseudo-punk”. Deu no que deu: perdeu oportunidades, arranjou inimigos, processos e brigas. As portas foram se fechando uma a uma.
    Com o passar do tempo, acho que ele cada vez foi enlouquecendo, pois ele não era conformista. E por isso mesmo cada vez mais ficava contráditório.
    O sopro de esperança foi esses dois livros que ele conseguiu bancar e publicar. Mas eles tinham idéias datadas, e acabaram não fazendo sucesso. Por mais que ele criticava, ele invejava o sucesso do Yabu com o seu Princesas do Mar.
    E por estar surtando, ele não conseguiu usar seu potencial, o que é uma pena. Talvez se ele mudasse de opinião e atitude a história seria outra. Mas o Zé nunca mudou e foi isso que foi levando ele pro buraco.

    • Capitão Trovão março 7, 2012 às 9:42 pm · Responder

      Acho que você foi quem mais se aproximou da realidade. Talvez BK tenha sido um cara que, intimamente, gostaria de ter todo o reconhecimento que outros mais habilidosos “socialmente” que ele angariaram, mas mantendo a pose de “bad boy”. Ora, pagar de “bad boy” em qualquer metiê e querer ter reconhecimento é coisa de rico/influente/costas quentes, que pode comprar todo o esquema e se fazer valer mesmo sendo um imbecil criticador de tudo/todos. Tão aí aquele merda do João Gordo, o Dado Bostabella e o Lobão, que não me deixam mentir… todos esses caras se mostram contestadores/brigões/idiotas e há uma caralhada de pessoas dispostas a idolatrarem-nos porque têm uma ou mais das coisas que citei anteriormente (grana, influência ou costas quentes); no mínimo, têm muita cara de pau pra criticar e depois aceitar mansamente uma posição nos lugares que desancaram por anos.

      Como o BK sempre foi assim, nunca conseguiu juntar grana o suficiente para ser “independente e querido”. Conseguiu, quando muito, ser “independente e fodido”, dependente da mulher, com idéias que, bem trabalhadas, seriam do caralho, mas que murcharam por causa da neura de ter que se mostrar minimamente provedor da casa.

      Penso que BK foi uma vítima clássica do “absurdo” da vida, definido por Albert Camus como “essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade”.

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