Para os que pensavam que na coluna de gêneros de ficção da Quadrinize só tinha coisa sobre ficção científica, trago um novo gênero. Ainda faltou falar de Space Opera lá na SciFi, mas, cedo ou tarde, eu trago um texto explicativo para vocês. Agora, para quebrar um pouco a mesmice, vou falar de algo fantástico: o Realismo Fantástico.
Também chamado em diversas regiões da América Latina de Maravilhoso ou Mágico, o Realismo Fantástico teve seu advento vinculado à Revolução Cubana, que levou aos olhos do mundo literário escritores de língua latina. Isso inclui também o Brasil-sil-sil como vanguardista desse gênero. Alguns dos nomes mais importantes desse movimento são os brasileiros Murilo Rubião e José J. Veiga, os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luís Borges, e o colombiano Gabriel Garcia Márquez.

Gabriel Garcia Márquez, vencedor do prêmio Nobel de Literatura com o livro Cem Anos de Solidão, que se enquadra no Realismo Fantástico.
Esse gênero surgiu como uma forma de literatura no qual os autores poderiam se utilizar dos credos e das superstições dos locais que habitavam. É nesse ponto que se encontra um dos principais pilares do Realismo Fantástico: a fantasia presente no cotidiano.
Costumo dizer que a pergunta motriz desse gênero é o “E se?”. E se de uma hora para outra, um país se desvencilhasse do continente e começasse a viajar pelo mundo como uma grande ilha móvel, que nem no livro Jangada de Pedra, de Saramago? E se, de uma hora para outra, a maioria das pessoas do mundo ficassem cegas, como em Ensaio sobre a Cegueira, do mesmo autor? E se no meio da noite, uma cobra de fogo saísse da mata e assustasse os habitantes de uma região, como no caso da lenda brasileira do Boitatá?

Como autor, o principal desafio de quem escreve realismo fantástico é inserir o “algo fantástico” na “nossa realidade” e calcular, a partir do ponto de inserção desse elemento, o desenrolar da história. Dependendo da abordagem, o elemento fantástico pode ser visto como algo comum e cotidiano, como nos casos de lendas e superstições. No Brasil, por exemplo, Saci, Curupira, Lobisomem e diversos outros personagens são seres tão presentes em nossa cultura que muitas pessoas realmente pensam que eles existem. Ou seja, é algo do cotidiano popular.

“O Curupira – Lenda Amazônica”, de Luís Santiago.
Por outro lado, sob meu ponto de vista (não que valha de muita coisa), histórias onde há um desequilíbrio gerado devido a aparição repentina de um elemento fantástico na realidade como conhecemos também podem ser consideradas de Realismo Fantástico. O mais importante desse gênero não é o “porquê” das coisas, mas o “o quê” acontece com as coisas. O importante não é o porquê de um dragão aparecer em Londres no ano de 2008, mas o quê aconteceria se isso acontecesse.

Em “Reino de Fogo”, um dragão acorda em 2008 durante as escavações para construção de uma linha de metrô.
Um outro grande exemplo de Realismo Fantástico é o filme O Labirinto do Fauno, do diretor mexicano Guillermo Del Toro, onde a fantasia permeia a nossa realidade quase de forma paralela.

"O Labirinto do Fauno" - Guillermo Del Toro
Pois é, amigos da rede Quadrinize. Sempre existe um pouco de fantasia no nosso dia a dia, resta ao autor elevar isso a níveis realmente mágicos. Não se preocupe com o porquê das coisas, se preocupe com o desenrolar da narrativa, afinal, magia não tem explicação.
Gostaria de agradecer nessa postagem ao amigo Rafael Salvador, que deu aulas sobre gêneros na Oficina de Quadrinhos aqui da Universidade Federal do Ceará. E até as próximas postagens, seguidores da Quadrinize!. o/